terça-feira, 20 de novembro de 2007
Sobrou Corpo, faltou filme
 Em 1975, Paulo
Pederneiras inicia o trabalho de criação do Grupo Corpo. Os mineiros
encantam o país, um ano depois, com Maria, Maria. O espetáculo,
coreografado pelo argentino Oscar Araiz, com letra de Fernando Brant e música
de Milton Nascimento, percorre 14 países e foi dançado no Brasil de 1976 até
1982.
A idéia de Paulo
Pederneiras era criar ?uma companhia de dança contemporânea, eminentemente
brasileira em suas criações?. Entre os fundadores estão cinco irmãos
Pederneiras e a primeira sede foi a casa dos pais. Essa harmonia familiar seria
uma marca do grupo.
"Além da qualidade
da coreografia, acho que o contato das pessoas, essa alegria que eles trazem,
que eles dão para nós é uma coisa incrível?", observa Francis LePigeon, diretor
do Théatre des Champs-Elysées, em Paris.
Em 1980, de nova parceria com Oscar Araiz, Milton Nascimento
e Fernando Brant, surge o Último Trem, que consolida a primeira
fase do Grupo Corpo, acentuada por uma visão particular sobre a dança
brasileira.
"A integração, não só da coreografia, mas da luz, dos figurinos, do
som; a estética criada pelo Grupo Corpo é realmente brilhante, totalmente única
e nenhuma outra companhia no mundo faz o que eles fazem", define Ella Baff,
diretora do Jacob´s Pillow Dance Festival.

Para comemorar os 30 anos de criação da companhia, o Grupo Corpo
apresentou, em 2005, o espetáculo Onqotô, com músicas de Caetano Veloso
e José Miguel Wisnik e com coreografia de Rodrigo Pederneiras. É esse momento
que a equipe de produção resolve captar para fazer o documentário Grupo
Corpo 30 Anos: Uma família brasileira (2007).
A pesquisa que compõe a edição foi bem
elaborada e resgatou antigas entrevistas, imagens de arquivo e programas de
televisão sobre a companhia. Esse vasto material se transformou numa colcha de
retalhos confusa. Sem um roteiro
forte e definido, o filme não segue a cronologia dos espetáculos tornando para
o público leigo difícil entender a evolução do grupo.
O projeto foi idealizado
pela produtora Lucy Barreto, responsável por grandes sucessos do cinema
nacional como Dona Flor e Seus Dois
Maridos (1976), O Quatrilho (1995) e A Paixão de Jacobina (2001). Lucy resolveu assinar a direção
geral do documentário e ignorar uma sábia regra que diz 'não se mexe em time
que está ganhando'.
"Orientei a seleção dos trechos dos balés, escolhidos em função dos
depoimentos com o objetivo de mostrar a evolução do grupo. Acompanhei o
trabalho de montagem e rimas entre os ensaios e os números de dança e também a
supervisão da montagem do balé Onqotô" explica Lucy.
Ao se precipitar sobre a direção, a produtora pode ter interferido no
processo dos dois diretores que iniciaram o trabalho, Fábio Barreto e Marcelo
Santiago.
"Outro grande prazer
foi filmar o espetáculo final, no palco do Palácio das Artes, em Belo
Horizonte. Contávamos com cinco câmeras e as dispusemos cinematograficamente em
posições especiais no palco, junto aos bailarinos, ou flutuando sobre eles,
de acordo com nossa diretora geral Lucy Barreto", revela Santiago.
Se o roteiro peca pela falta de objetividade, a montagem parece
acanhada, pouco criativa, talvez uma soma da opinião dos três diretores.
Podemos ver alguns erros primários na edição e perceber indecisões nos cortes e
fusões. A química entre ensaio e palco não acontece, o público fica frustrado
por estar tão perto de um momento íntimo de criação e, ao mesmo tempo, perceber
que a câmera não será capaz de registrar satisfatoriamente esse tempo.
"Filmar o Grupo em ação foi emocionante. Tínhamos o temor de que nossa
câmera pudesse ser um corpo estranho dentro do dia-a-dia do Grupo. Mas, ao
contrário, desde o primeiro dia fomos recebidos como se fizéssemos parte do
Corpo. Tivemos grande liberdade de trabalho e, algumas vezes, era como se o
Dudu Miranda - diretor de fotografia e câmera - participasse também da
coreografia, pois girava com os bailarinos no palco de ensaios", conta Marcelo
Santiago.
O olhar da câmera parece querer fazer parte da coreografia, do bailado
e entrar no grupo, mas ao se permitir essa cumplicidade esquece seu papel
principal de registro. Se a câmera é parte da ação quem está nos mostrando essa
ação? Novamente, esse parece ser um problema de direção, de posicionamento do
olhar, de colocação da equipe, faltou objetividade para captar a subjetividade
do processo criativo do Grupo Corpo.
Grupo Corpo 30 Anos: Uma família brasileira não conseguiu levar
o público a sentir a trajetória dos irmãos Pederneiras e nem dimensionar a
importância da companhia, mas esse é o caso onde só o registro já vale a pena.
O grande mérito alcançado por Lucy Barreto é ter realizado o projeto, não
importando sua qualidade final, e ainda assim ter conseguido uma janela para o
lançamento em salas de cinema.
O alcance do documentário de 74 minutos no cinema será pequeno, mas já
seria bom pensar na distribuição para a rede de ensino pública e também para a
televisão, um veículo que parece ser mais apropriado para o produto final.
Por Christian, às 12:13.
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